A partir de um ponto de vista contemporâneo, as cidades em todo o mundo estão servindo de palco para a arte de se conviver em comunidade e compartilhar a vida, de uma maneira um tanto quanto caótica, devido ao fato de estarem submetidas aos chamados reflexos da Globalização.
Entende-se por cidade um
lugar onde se encontra uma maior densidade demográfica com grande capacidade de
interação e de comunicação. Este resultado só se torna mais visível quando um
problema, que está situado no âmbito global, aparece logo ali ao lado, no quintal
de casa. Somente quando isso acontece é que se percebe que tem algo
acontecendo, e então assim é tomada alguma providência. Mas essa busca da
solução se restringe aos alcances locais, horizontais, enquanto, na realidade,
o problema é vertical, ou seja, derivado de algum lugar, não se sabe qual, ou o
porquê, pois não é visto e nem palpável.
Além disso, tem muito mais poder de influência
do que uma simples relação imediata de convivência. É aí então que mora o
perigo. Porém, esta sensação de medo do desconhecido junto com a necessidade de
se proteger, que ocorrem por consequência deste fato global, não são novidades
para a História. Isso, segundo a pesquisadora Nan Ellin:
“era um dos principais
incentivos à construção de cidades cujas divisas eram muitas vezes definidas
por amplas muralhas ou cercas, das antigas aldeias da Mesopotâmia às cidades
medievais e aos assentamentos dos nativos americanos. Muralhas, fossos e
paliçadas assinalavam a divisa entre nós e eles”. Nan Ellin
A diferença é que hoje em dia
essas ameaças do desconhecido estão do lado de dentro, o que transformou as muralhas
coletivas em cercas individuais e virtuais, distanciando os próprios habitantes
uns dos outros. Junto com o desenvolvimento, a liberdade de expressão e as facilidades
das tecnologias de comunicação, vieram também o medo e a desconfiança dos ‘outros’,
resultando em isolamentos, às vezes inclusive em relação àqueles que dividem
uma parede no mesmo edifício.
Mas isso não quer dizer que agora está tudo
perdido e o pessimismo dominou em sua totalidade. Neste trecho citado a seguir,
por exemplo, é demonstrado nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em Tempos Líquidos, um
otimismo em lidar com o problema, sugerindo uma maneira de driblar essas
divergências, para que se possa ter algum entendimento e uma convivência menos
desconfiada entre os habitantes das cidades. Isso aconteceria através do
compartilhamento de experiências nas intercessões espaciais:
“A “fusão” exigida
pela compreensão mútua só pode resultar na experiência compartilhada. E
compartilhar a experiência é inconcebível sem um espaço comum”. Zygmunt Bauman
É aqui que se
chega ao papel do arquiteto e urbanista, em pensar e projetar a cidade e também
seus equipamentos, com todos os fluxos criados, conexões, acessos e
principalmente os nós resultantes destas conexões, causados pelas superfícies que
os suportam – corredores, ruas, viadutos, canais, etc. – e também pelos fluidos
que os percorrem – pessoas, bicicletas, veículos de transportes, águas,
animais, resíduos (líquidos e sólidos), e por aí vai. Tudo que ocupa espaço e
que faça parte das mobilidades, inserindo-os em um objetivo de se manter ou
criar uma harmonia ambiental.
Neste palco urbano, através de tentativas e
erros, o que se deseja provocar são, justamente, as convergências sociais para
que seja possível compartilhar as experiências e os desafios, que nos são
impostos no aqui e agora. No momento presente, na fuga utópica e constante do
perigo.
“às vezes é necessário separar as funções e especializar os espaços.
Entretanto, são possíveis outras soluções, reunindo mais, separando menos e
articulando diversas escalas de deslocamentos e de ações que busquem a
coexistência e o convívio e não a segregação, o isolamento e a hierarquização
das velocidades, dos tipos de atividade e dos indivíduos..., começando pelo
espaço privilegiado da vida coletiva e pública que é a rua e pelos seus nós, no
duplo sentido do termo.” (texto de Margareth da Silva Pereira para a exposição ‘A
Rua é nossa... é de todos nós!’ criado pelo IVM-Institut pour la Ville en
Mouvement).
Sendo assim, o ato de desatar os nós criados por essas tramas
formadas na cidade não é o objetivo, e sim tirar partido destes encontros, transformando-os
em ambientes harmônicos de acordo com suas vocações e necessidades, a partir de
tratamentos arquitetônico e urbanístico. Especulações sobre soluções para as
grandes metrópoles com diversos fluxos sobrepostos e nós de convergência
existem há tempos, por exemplo no filme “Metrópolis” de 1929, ou no livro de
Koolhaas “Nova York delirante” onde ele cita em CONEXÕES um esquema de Hood
como proposta para o horário de “rush”.
Mas este futuro já está presente. Os
esquemas estão sendo colocados em prática, porém solucionando por um lado e
problematizando por outros. A evolução e o desenvolvimento industrial, tecnológico,
econômico e social estão aproximando a vida cada vez mais das saturações por
conta de demandas excessivas e incompatíveis com o que há disponível na Terra.
Por exemplo: espaço físico para a quantidade de automóveis, como também árvores
para uso de madeira ou terra para aterros sanitários, água, etc. Além disso, criando
um modelo de vida que afasta as pessoas das relações interpessoais e sensoriais
seguindo à risca os moldes individualistas criados durante anos de suposta
evolução.
Com isso, o reaproveitamento e as alternativas de uso estão sendo
cada vez mais solicitadas neste beco, como saída, para se atingir uma compatibilidade de
usuários x meio ambiente, em todas as escalas que isso implica - do micro ao
macro.
texto produzido para a o Trabalho Final de Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-UFRJ) em 2010.
CHRIS D. T.

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