Nº06 | PERTENCENDO

 Nº06

Imagem: Fotografia de Sebastião Salgado, Livro: Genesis, 2013.


PERTENCENDO


Pertencimento é algo subjetivo, um sentimento que alcançamos quando nos sentimos acolhidos. Quando me sinto aceita me sinto pertencendo a algum lugar. Ser do jeito que sou, ser quem sou e ser aceita, respeitada e amada me faz sentir o ‘pertencimento’.

Gostaria de poder sentir isso sempre, porém acredito que o desconforto me faça ser criativa nas formas que encontro para me aceitar e estar no mundo. Sei que o sentimento de pertencimento é pré-requisito para estarmos bem no mundo, para sentirmos que somos parte e que não estamos sozinhos. Mas este sentimento pode ser alcançado em diversos níveis, e um deles é o mais amplo de todos, ligado à natureza. O mais fechado de todos ou o mais próximo seria ser aceito por aqueles que amamos, aceitos como somos, e quando isso não é possível, a ferida abre um rombo e fica mais difícil estar no mundo.

A sociedade pode dar esta oferta de multiplicidades de seres, para que encontremos a nossa família, a nossa equipe, grupo, o nosso ambiente que sentiremos este pertencimento e estaremos bem em estarmos no mundo. E poderemos nos expressar melhor, atuar melhor, fazer alguma diferença positiva na vida de outros, que também se sentirão acolhidos, e passar isso adiante.

Os museus, espaços públicos voltados para a arte, a ciência, o conhecimento, pode e deve abrir este espaço na formação de grupos que se encontram e se sentem pertencendo a alguma coisa. Somos seres coletivos, dependentes de nossos semelhantes afetivamente e fisicamente, desde o momento em que chegamos no mundo. Os espaços que abrem espaço para voz, expressões, são espaços que conectam semelhantes, que ecoam individualidades e coletividades que pescam pertencimento, e isso faz diferença no mundo.

Acredito no papel das instituições, para que este sentido seja levado ao máximo de pessoas possível naquela vizinhança, naquele bairro, cidade, país e mundo, onde quer que o alcance consiga chegar. Acredito, que quanto mais vozes forem expostas, ouvidas, compartilhadas e vazadas, pensamentos, corações e pessoas inteiras serão impactadas e poderão sentir o pertencimento, nem que seja por aquele instante. O ‘efeito borboleta’ fará o papel nos seus inconscientes e o impacto será reverberado por aquela potência que foi atingida.

Os museus e instituições podem, devem, e a meu ver, funcionam como alto-falantes, que dão vazão a vozes, sentimentos, e consequentemente ao sentimento de pertencimento, salvando vidas com as expressões mentais, físicas, artísticas, culturais e científicas. O conhecimento salva, e são muitas as barreiras impostas que precisam ser quebradas, atravessadas, de maneira palatável. Cada um possui uma percepção de mundo diferente, então o conhecimento deve ser passado de forma a quebrar barreiras para cada um de nós, indivíduos coletivos.

São infinitos assuntos, inquietações, questões a serem passadas para que haja a possibilidade do senso de empatia, que gera o senso de pertencimento a alguém. São bilhões de pessoas no mundo, infinitas expressões e pontos de vistas. Estes espaços nunca serão excessivos, sempre há espaço para mais, para reflexões, expressões, representações e sempre haverá necessidade de espaços metais e físicos serem ocupados pelo diferente e por nós.

Estas fusões serão necessárias para as transformações que precisamos viver e para ações que precisam ocorrer, que serão fruto dos nossos ouvidos, entendimentos de corações. Só assim salvaremos o planeta dos impactos nocivos. Só assim sentiremos que pertencemos e somos responsáveis.

Pertencer também é se responsabilizar.

Portanto, fazer com que as subjetividades sejam aceitas, respeitando o desconforto existente e a natureza das multiplicidades é construir espaço de conhecimento para expressar as diferenças entre todos nós. Ter um espaço para compartilhar impactos subconscientes mostra o poder das instituições, dando voz aos sentimentos, abrindo a chance de se romper barreiras, de forma palatável às vivências coletivas ou individuais. Criar empatia às infinitas expressões e representações humanas é o caminho para as transformações, para uma possível responsabilidade compartilhada, que farão as mudanças necessárias ao mundo e à humanidade.

Chris Duarte.

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